- Pô, tá foda de sair desse buraco.
-Então entra nele.
- Pô, tá foda de sair desse buraco.
-Então entra nele.
Ninguém ri por último.
Pernil says: por que comprar uma vaca se eu tenho leite de graça? Pensa. E ainda tem gente capaz de chamar frases como esta de filosofia barata. Papo de boteco. Conversa de bêbado. Piada de mal gosto. Discurso machista. Ai, ai. Saudade da minha vaca.
Ficamos nos olhando por horas. Frente a frente. Olhos nos olhos. Nenhum dos dois teve coragem de dizer. Talvez por que não tinha mesmo o que falar. Talvez por já ser muito tarde. Continuo olhando pra ela. Eu aqui. Ela ali. A tela.
Devaste a mata nativa, asfalte tudo, construa casas milionárias, cerque de seguranças e o resultado de tamanha ignorância é: Laranjeiras. Um condomínio de praia mega-hype vizinho da mega-hippie Praia do Sono. Uma maravilha. As crianças podem brincar soltas (do lado de dentro das grades, óbvio), velhos podem jogar golf sem a Mata Atlântica para atrapalhar as tacadas e as madames podem levar todos os seus empregados, desde que usem uniforme. Eles erraram só em um pequeno detalhe: pra chegar na Praia do Sono, só passando por Laranjeiras. Ha ha ha. Que ironia. Fico imaginando a ripongada vendendo tacos de golf de durepoxi para os tiozões e cangas tie-die do Bob Marley para as tiazonas. Seria a glória. Mas, claro, eles deram um jeito de isolar os micróbios. A solução é tosca mas funciona. Vou tentar descrever a odisséia (sim, eu era um dos ripongas). A primeira parada é na famosa e temida Polícia de Paraty. Com fuzis a tiracolo, eles revistam o seu carro inteiro a procura de algum motivo para te extorquir. Se conseguir passar ileso, siga em frente. Pegue a estrada para Trindade e na primeira bifurcação sem qualquer sinaização, use a sua intuição e vire à esquerda. Chegando no primeiro vilarejo miserável sem acesso à praia é só abandonar o carro num terreno e seguir com a bagagem para o ponto da Kombi. Essa é a melhor parte. Para atravessar o condomínio, os ricos compraram umas Kombis velhas que você é obrigado a entrar se quiser chegar até o barco. Bizarro. Kombis apinhadas de mochilas, barracas, miojos, maconhas, violões e dreadlocks fazendo um tour agradabilíssimo pelo condomínio. Show de horror. Chegando no ponto do barco, vários seguranças aguardam sorridentes a sua chegada. Você é obrigado a esperar o barco em um espaço micro, sem banheiros, sem cadeiras e sem água. Uma corrente determina onde fica a fronteira. Enquanto você espera o barco sentado no chão, vários condôminos passam tentando ignorar o espetáculo. Não aguentei e pedi uma carona no carrinho de golf de um nobre senhor que se dirigia ao seu helicóptero (tinham três parados bem ao lado do campo de concentração). Quase fui linchado. Os seguranças, caiçaras que num passado próximo eram donos daquelas terras, prontamente defenderam o patrãozinho indefeso. Para minha surpresa, até os ripongas ficaram contra mim. -Pô, relaxa, pára de reclamar. A Kombi é de graça.
A esperança ignora as estatísticas e nos transporta a lugares incríveis. Países remotos. Onde não precisamo mais trabalhar. Inventamos profissões exóticas. Prometemos continuarmos cidadãos simples e honestos. Quiçá nem parar de trabalhar. Seguir a rotina. Ra ra ra. Dividir com quem? Família, no máximo. Pega mal não ajudar parente. Passa a régua. A noite, antes de dormir, a esperança nos conta histórias de um mundo feito de aço e purpurina. Vitrola tocando Glam rock. E pegamos no sono felizes. E tudo isso por apenas R$ 1,75. Quase nada.
“O firme penetra ao centro do que é correto e sua vontade se cumpre.” – será que estão servindo comida chinesa em casas de swing agora? Vou ligar pra minha irmã e perguntar.
Por via da dúvidas, tô passando numa casa lotérica agora. Vai que.
35 – 57 – 21 – 25 -39 – 48
Se nada der certo, eu volto pra casa. Agora que tenho uma. Do 31º andar eu vejo a aura de São Paulo. O céu de ponta-cabeça. A vida embalada em plástico bolha. Restos, rastros, risos, rixas, ralos. Se nada der certo, eu volto pra casa. Não pra Durhan, Pira, Riba, Salvador, BH, Birigui, Cabrobó. Volto pra casa. A própria. O sonho brazilian way of life da casa própria. Que só quando cruza a Ipiranga e a Consolação.
Mais conhecido como um ano. Resolvi dar uma chegada até aqui para dar parabéns ao meu blog. Tão abandonado. Esquecido, guardado no escuro, mofando em algum HD, de algum servidor, em algum lugar dos Estados Unidos da América. E justo no momento em que o Outros Nononos estava no auge da sua audiência. Chegando a atingir em dias de maior movimento até 4 leitores. Bom, mas não adianta chorar os bytes derramados. E já que estamos aqui sozinhos. Dedico este texto à você, meu blog. Que neste último ano fez minhas solidões parecerem bem menos solitárias. Escutou minhas chatices, meus trocadilhos, músicas chatas, desabafos. Termino este post de aniversário com um presente. Um segredo. Que fique só entre eu e você. Eu estou….. Ih… tem alguém lendo a gente. Disfarça. La, la, la, la…
É de uma eficiência incrível este meu banco. Nem parece banco. Acordei com uma carta do presidente me parabenizando por ter feito o seguro do apartamento que acabei de comprar. Uma maravilha. E eu nem precisei pedir. Minha gerente fez por conta própria. A partir de hoje se, por acaso, a parte elétrica der algum defeito, ou cair um raio no prédio e a fiação pegar fogo; ou se roubarem todos os meus móveis, o seguro cobre tudo. Perfeito. Perfeito se eu já estivesse morando lá. Aliás, nem a chave eu recebi ainda. Raiva. Ódio. Ira. Revolta. Saí de casa puto da cara. Logo na seqüência, fui estacionar o carro e derrubei uma velhinha no chão. Ninguém se machucou. Até que ela, humildemente, se levantou, pediu desculpas e atropelou meu coração.
She left a heart and took a plane
Certain of the wrong
The angels got sleept
She was alone
Thirteen floors, one pink pill
Ready to jump into the unknown
jump from all
And get under the ground
with you
She letf a heart to take a ride
Thanks God for closing your eyes
Do it over, and over
Its over
She left a heart to find a soul
Now miss then both
- Você está mentindo.
- (…)
- Quer dizer que já está gostando de mim.
Roberto Carlos e Tim Maia. Gravação histórica. Ouvi pela primeira vez em uma fita cassete gravada pelo Seu Cássio. Ouvia sempre antes de dormir. Gostava de brincar de entender as letras. Lado A: Roberto Carlos / Tim Maia. Lado B: Seleção Romântica para Ivonete. Sempre achei que Pede a ela falasse sobre uma dor de cotovelo básica. Dessas que tem saído mais que dor de cabeça e dor de barriga. Pensei que fosse a singela história do pentelho que ligou um milhão de vezes pra ex-mulher e a biscate mandava dizer que não estava. Aliás, parênteses (todo celular deveria vir com bafômetro instalado. Acusou bafo de cachaça, cai o sistema. Desliga geral e ainda manda um sms pedindo desculpa pelo incômodo.) Bom, mas isso também não vem ao caso. Dia desses eu ouvi a música supracitada na estação do metrô e resolvi brincar de entender a letra. Entendi de outro jeito. Pede a ela. Definitivamente não é só uma música sobre amores concordatários. É, principalmente, sobre o personagem que não aparece na letra. O título já entrega. Imperativo. Sujeito oculto. Pede (você = amigo) a ela. Pede a ela é, acima de tudo, uma letra sobre amizades incondicionais. Sobre aquelas figuras que nos escutam em noites desestreladas. Pessoas que confiamos nossos sentimentos menos nobres: ciúme, inveja, raiva, desespero, compaixão. Pede a ela pra ligar pra mim. A saudade tá batendo, tá ruim. Eu tenho um amigo desses. Só que nunca precisei pedir pra ele ligar. Deus me livre, ficar com fama de mala. Prefiro a de ostra.
Assim, sem assunto mesmo, resolvi dia desses ligar para o meu pai, Seu Cássio. A gente raramente (lê-se nunca) se fala. Alô, pai? Silêncio. Oi filho, sua mãe não está. Eu sei, queria falar com você mesmo. Silêncio. Falamos por alguns minutos. Não muitos, mas cirúrgicos. Minutos precisos sobre família, jazz e a diferença entre solidão e solitude. E, sozinhos, desligamos satisfeitos. Silêncio.
Azul. Silêncio. Comprei bolachas recheadas de jazz e sentimental mood. Duke and Coltrane fazem a agulha do meu toca-discos gemer, como quem goza e depois chora. Dor ou prazer? Diferença faz alguma, Mestre Yoda. No fundo, estamos sempre abarrotados de motivos pra sorrir e lamentar em domingos perfeitos. Irritantemente exatos, ensolarados e descompromissados. Sem pressa. Morte lenta. Fim do Lado B. Gosto de ouvir por alguns instantes o ruído repetitivo dos finais dos discos de vinil. Sádica mania. Ben Webster e seu sax tenor chorão. Blue Note Rules. Ainda tenho esperança de ouvir o telefone tocar com alguma notícia triste. Ou quem sabe um trabalho urgente, sem prazo, pra amanhã. Preciso desligar. Tô com um pouco de pressa. Preciso acabar com este domingo de uma vez. Quem sabe assistir ao pôr do sol na praça tomando chimarrão e ouvindo aquele violãozinho legião-urbânico dos meninos. Quem sabe um cinema mais tarde? Uma pizza, meia marguerita, meia boca? Três DVDs da seção lançamento. Devolução em 24h. Até lá o domingo já era. Quiçá são e salvo.
Clic, clic, clic. Abria e fechava a tampa do baton. Olhava para algum lugar que não era aquele para onde os olhos miravam. Linda: a luz refletida das suas pernas. Ela vestiu o vestido preto e partiu suave, de luto. Ainda voltou para buscar a luminária em forma de coração. Ficou escuro. Tum-tum, tum-tum. tum-tum.
Muito obrigado, Sr. Homem do Tempo. Obrigado pelas suas matemáticas previsões. Não as que você acerta, claro. Quando você diz que o final de semana vai fazer sol e faz sol, nos sentimos seres superiores, inteligentes. Mas quando você erra e chegamos em casa ensopados e com frio, Sr. Homem do Tempo, lembramos que não temos certeza de nada. Que não somos, estamos. Que somos o que fazemos. Agora. E agora estamos com calor, respirando fumaça e ouvindo um bando de gente discutindo o futuro da humanidade, Sr. Homem do Tempo. Olha aí o futuro de novo. O futuro. No future. O futuro.
Não existe palavra tão solitária quanto só. Só duas letras, ou só três caso não ache o botão do acento. Aí fica soh. Aproveito a audiência para perguntar se alguém aí sabe o significado dessa palavra? Nunca experimentei. Dizem que estar só é tão pouquinho, mas tão pouquinho que você olha e se pergunta: só isso? Tenho muito medo de ser ou estar só, como se tem medo de desastres aéreos sem nunca ter participado de um. As músicas que falam da solidão de ser só são as mais tristes. Eu quase me sinto sozinho quando escuto Trocando em miúdos do Chico. Quer dizer, do Chico e do Francis Hime. Não deve ser possível falar da solidão estando só. Talvez seja preciso juntar várias solidões para descrever a palavra só. Digo talvez pois, na verdade, estou chutando. Não entendo. Ela ficou com o resto. Ele só com um disco do Pixinguinha. Ou só, com um disco do Pixinguinha. E quando começo finalmente a entender, STOP, FFW, NEXT TRACK. Deixa pra amanhã. Amanhã talvez eu morra e fique sozinho, enterrado. Digo talvez pois, na verdade, estou chutando. Não entendo.
Duas e vinte e cinco. O preço a ser pago. Caro preço. A madrugada é minha mulher. Vagabunda. No mesmo bar, no mesmo bar. Altos decibéis, teores alcoólicos idem. Etílicos croquetes de carne com aipo. Dry martini. Mais um, mais um, mais um, o último, a saideira. A conta. Caro preço. Falido. No fundo do poço há sempre um último copo d’água. A saideira, por favor.
No início era apenas um Aiwa farseta. Bandeja com capacidade para 3 CDs, controle remoto, luzinhas e um som de merda. Depois veio o Gradiente old school velho do meu velho pai. Revolução. Começo a tomar gosto pela coisa toda. Achei que tivesse atingido o nirvana com meu Hi Fi Valve Tech handmade by Carlos Alberto Sossego. Mera ilusão. Um dia desses fiz a besteira de assistir a um concerto na Sala São Paulo. Nada será como antes.
Dica: para ficar com ainda mais raiva do seu atual aparelho de som, compre ingressos para o coro, atrás da orquestra, de frente para o maestro. Além do lugar ser melhor, é mais barato.
Chimarrão com maconha: erva que não acaba mais.
O sol entrava pela janela e fazia um desenho estranho no meu pijama. Daqueles que a gente só repara em dias sem pressa. Não conseguiria precisar quanto tempo fiquei viajando no quadriculado da flanela. Talvez 1 minuto, ou 15. Ah, o cheiro do café. Hoje sem açúcar, Seu Joaquim. O doce é para os que tem pressa. Para sentir o gosto amargo é preciso não ter hora marcada. Visto meu chapéu e saio andando pelo bairro. A maioria do pessoal prefere ir de carro. Ultimamente tenho optado pelo chapéu. Além de mais econômico, demora mais pra chegar. E a vista é linda.
Uma música tocada de 32 formas diferentes. Ou seria 1 música com 32 paradinhas? Overcool. Ou, no português, sobrecoxa. Muito raipe pra pouco rock. Garotos. Apenas bons, bem vestidos, cheirosos e arrumados garotos.
Meu nome é André de Melo Godoi e sou cinólatra. Veja bem, cinólatra, não cinéfilo. Vou ao cinema como se injeta heroína. Assisto pra esquecer. Pra ficar escondido no escuro enchendo a cara de glicose. Anônimo entre 200 caras azuis, altistas e ruminantes. 120 minutos de não-eu. Comecei cedo, dentro de casa. Sessão da Tarde. Horas e horas largado no sofá curtindo a vida adoidado. De graça. Hoje eu pago inteira, sem carteirinha. Good shit. Só pego do Leão, do Urso e do tal do Oscar. Confesso, leio os créditos. Sou facilmente confundido com um cinéfilo. A diferença é que cinéfilos só assistem a filmes devidamente criticados e estrelados. Eu sou bem mais junk. Na abstinência, sou capaz de encarar substâncias inimagináveis. Van Damme dublado, por exemplo. Falando nisso, um Dominguinho Maior antes de dormir não seria nada mal.
Queria pedir desculpa aos meus caros 3 leitores. Estive, acredito que ainda estou um tanto quanto – ausente. Já volto. Espera aí. Não demoro, prometo. Ah, liga pra mim. Vê se aparece. Tá foda. Beijo.
Gay perde o relógio na rua e pergunta as horas. Corta para uma apartamento na madrugada. Estou sozinho. Várias filmadoras de última geração estão espalhadas no terraço. Mulher com hobbie de seda japonês entra na sala, pergunta se eu faço curso de clio e começa uma série de tai chi. Entra a filha oriental tocando flauta de bambu. Mulher me oferece um cesto de vime. Entrego para o marido (David Linch) que aparece do nada. David Linch sorri. Acordo. Anoto o sonho feliz por ter sonhado com David Linch mesmo sem ter a menor idéia de como é a cara do David Linch.
Hoje eu ganhei uma fruteira. Juro, uma fruteira. Pior, um disco de vinil em forma de fruteira. Muito pior, o vinil é de verdade. Dez vezes pior, é um vinil do Roberto Carlos. Mil vezes pior, e bota pior nisso: o brinde é de uma produtora de som. Repassei o presente infeliz para meu professor de inglês. Um neozelandês talvez não se importe em acomodar cachos de banana sobre as canções do Rei.
Comédia é a tragédia que acontece com os outros.