Criado mudo
Marrom cor de formiga. Cor de garrafa. Não saberia desenhar meu próprio criado-mudo. Meus traços são pobres e feios. Indecifráveis homens, mulheres e crianças-palito. Não me resta alternativa senão escrever a história deste calado objeto. Meu criado-mudo um dia foi árvore. Quem diria – o corpo de uma árvore brutalmente assassinada no município de Cambé, interior do Paraná. Crime bárbaro. A árvore foi esquartejada. Seus restos mortais transformados em 2 beliches, 1 armário padrão cerejeira, 7 porta-incensos e um casal de criados-mudos. Não se sabe mais o paradeiro de nenhum deles. Pobres diabos. Exceto daquele estranho casal de criados-mudos gêmeos. Pegaram carona num caminhão da Fábrica de Móveis Brasil e vieram tentar a vida em São Paulo. Moravam silenciosamente na Rua Teodoro Sampaio. Conheci o casal em meados de 2001. Tinha acabado de ser contratado na agência em que trabalhava. 800 pila mais tíquete. Só deu pra comprar um dos gêmeos. Fiquei com o criado-mudo fêmea. Resignado, o criado-mudo fêmea se mudou para minha casa. Mora comigo até hoje. Me empresta livros, vela meu sono, mata minha sede, não me deixa trepar sem camisinha. Meu criado-mudo é um pedaço de cadáver com que aprendi a conviver e amar. Quem dera ter um destino tão nobre. Quando morrer, desejo ser esquartejado. Que meu crânio se transforme em uma linda luminária. Minhas costelas, em porta-revistas. E que dos meus ossos se faça um rústico criado-mudo com tampo de vidro. Que assim seja.
Outubro 19, 2007 às 2:09 pm
Muita gente se pergunta: você é gay?
Outubro 19, 2007 às 2:16 pm
no momento, não.